terça-feira, 18 de junho de 2013

Mais uma pérola

Ele caminhava de cabeça baixa.

O frio incomodava um pouco, mas ele gostava daquele molhado, úmido, incômodo com o vento frio. Endireitou as abas da gola do casaco e continuou em direção a escola.

Um pingo de chuva que transbordou dos seus cabelos ruivos, curtos e gelados, bateu na ponta do seu nariz e, de lá, para o chão sujo de lama.

Ele tinha por volta de 1,50. Baixinho, olhava fixamente para o chão e o momento do inverno - da alma e da estação - nunca lhe fora tão aquecedor.

Com os pensamentos fixos no que lhe provocava ódio e sentimentos controversos, não havia espaço para dúvidas, justificativas amenas ou qualquer outra porcaria que sua podre consciência tentasse lhe empurrar.

Mesmo com os olhos semi-abertos, encarando o chão enquanto caminhava, era outro filme o que podia enxergar naquele momento.

Apesar do tom meio gris-azulado do dia de frio, sua visão era embaçada por vermelho.

Em primeiro lugar, odiava aquela garota. Prepotente, vidinha perfeita, corpinho perfeito, bons dentes. Veio, fez o que quis. Partiu. O que mais a fazer?

Não podia reivindicar seu amor, pois não a amava. Não podia chamar sua atenção, pois, talvez, nunca a tivera - apenas alguns relances de diálogos curtos. Não podia reclamá-la, porque nunca tinha feito questão de sua presença.

A ambiguidade era tanta que lhe entalava; e era ela que dava ódio.

Mas não só ela, veio junto a pequena crise em que se encontrava.

Olhou para o portão da escola quando reconheceu os cascalhos da entrada. Nada de novo ali. O mesmo portão choroso de pingos de chuva, como se ele mesmo pedisse para que seus alunos não entrassem lá.

Um ambiente que nunca lhe agradou por completo.

Ora era pelas lições; ora pelas companhias. Quando um não era o vilão, o outro tomava seu lugar.

Na verdade, a insatisfação era uma companheira e caminhava lado a lado com o pequeno por onde andasse.

Espirrou pela frieza da chuva e ouviu risadinhas contidas de um pequeno grupo ao seu lado. Devia estar todo molhado e ridiculamente solitário.

Deu de ombros internamente. Não fazia questão.

Caminhou para a sala de aula, deixando rastros de chuva, lama e uma cara séria por onde passou.

Por muito tempo, todos iam lembrar daquele rosto de espinhas, nariz longo, boca pequena, sobrancelhas e cabelos ruivos com aquela mesma cara de poucos amigos... como quem indicava que aquele era um grande dia.

Entrou na sala e discordou da professora.

Havia uma votação na escola sobre uma possível extensão do período de intervalo entre aulas. Os alunos escolheriam por mais cinco minutos de interrupção entre uma aula ou outra - que já eram de iguais cinco minutos.

Ele discordou. Dela e da turma inteira que votavam por mais cinco minutos.

Ele não sabia expressar o quanto achava desnecessário aqueles minutinhos a mais. Algumas palhaçadas que percorriam os cinco minutos já existentes lhe deixavam enojado. Aumentar aquele tempinho não era necessário e só alongaria ainda mais o tempo que passavam dentro da escola - aquela, dos portões chorosos e não-convidativos.

Mas parecia que, para todo mundo, aquilo era coerente. Ele entendia. Mas não queria.

Um borbulhar de crescente ódio aumentou ao vê-la votando a favor.

Algumas lembranças em relação à noite passada também não o ajudaram. Gritos pela casa e louças estilhaçadas eram apenas o mínimo, comparados ao inferno pessoal e interno que era obrigado a passar toda vez que aquilo acontecia - e agora com uma frequência assustadora.

Danem-se esses problemas dos outros quando os meus estão me matando, ouviram?? Me matando!!

Foi assim que decidiu.

Preferiu deixar que a incompetência da polícia levasse seus meses para descobrir como arranjou a sua grande arma.

Sem pejorativos, retirou um pequeno revólver - o que iria ser analisado pelo policial Fraga, Oliveira, Simões, o que-incompetente-fosse - e apontou para o pequeno rostinho da garota.

O susto, o pavor, os olhos brilhando de pânico. Tudo isso somado aos gritos da turma inteira, dos pedidos desesperados e trêmulos da professora. Tudo aquilo aumentava seus ressentimentos que agora eram grandes demais. A visão estava quase cega de rubor do sentimento de guerras.

Os gritos ficaram mais altos, mais apelativos.

Não via ninguém, não ouvia ninguém. O foco ainda era aquele rosto bonito, em pânico, que provavelmente via a vida passar diante de seus próprios olhos naquele momento.

Mudou de ideia. Seria egoísta e clichê demais se a sentenciasse.

Queria que vissem. Queria que enxergassem. Que todos estavam doentes e ninguém ia resolver absolutamente nada.

Ah, como tudo melhoraria se todos soubessem daquilo.

Não bastavam as desculpas da garota, a desistência dos que lutavam, a consciência de quem dividia o teto com ele. Nada iria mudar. O problema era aqui. Agora. Dentro de si. Ninguém ia resolver, nunca -

Resolveu. Apertou contra a própria têmpora, sentenciando-se num destino ainda mais clichê do que a morte da "pseudo-amada". Mas percebeu isso tarde demais enquanto seus pedaços respingavam na amada, no colega, na professorinha. Pedaços e pedaços de mais um Jeremy cansado dos próprios problemas e não dos problemas do mundo.

Ou talvez o mundo todo pesasse demais por sobre os seus ombros, de forma que não pôde mais aguentar...

Um comentário:

  1. É como você mesmo diz: mais uma pérola. ótimo texto, Maluh.

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