terça-feira, 24 de janeiro de 2012

A verdade em Eco

Ao abrir uma crônica da escritora e jornalista Eliane Brum no website da Revista Época, deparei-me com uma realidade desconfortável (pelo menos, para mim): ao começar a ler linha por linha, parágrafo por parágrafo e, lentamente, ir descendo a barra de rolagem da tela do meu monitor, minha visão foi embaçando aos poucos, meu cérebro foi se anuviando e o seguinte pensamento me causou um sobressalto depois do devaneio: eu tenho preguiça de ler.

Mas antes de falar mais a respeito deste assunto, eu mesma vou bancar a advogada do diabo - que também se personifica em mim neste caso - e vou tentar explicar mais ou menos do que se trata:

Quando pequena, eu era apontada como uma espécia de "prodígio" por alguns membros da família. Antes que condenem a aparente - e quase óbvia - prepotência dos meus familiares, eu emendo explicando que eles afirmavam isto por me verem "lendo" demais com dois, três, quatro anos de idade, faixa etária esta na qual eu nem sequer sabia desenhar um O direito.

No entanto, minha audácia era tanta que, ao sentar no chão enquanto minhas tias e avós tagarelavam e tricotavam histórias alheias, eu me apossava do livro ou jornal mais próximo e "lia".

Como?

Pronunciando as palavras que eu julgava estarem escritas no papel impresso a partir das imagens que estavam ao lado do texto. E o melhor! Muitas vezes, o conteúdo estava de cabeça para baixo e eu, por não saber ler ainda, passava os dedos pelas linhas, murmurando frases, combinações e interpretações como se estivesse realmente absorta na leitura dinâmica.

Bonitinho, não? Pois é.

Eis que cresci, apaixonei-me por leitura - assunto que prefiro comentar em outro post - e engatei a quarta marcha para seguir na corrida louca por mais conhecimento. Li muito e li mais, até que hoje me considero uma fã de literatura.

Controvérsias sobre meu gosto literário a parte, que eu gosto de ler é fato. Ler no sentido de pôr os olhos sobre linhas escritas, impressas ou digitadas, absorver e interpretar o que foi lido, além de guardar na cachola da memória.

Mas enfim, o que isso tem a ver com Eco, ou melhor, sequer a ver com Eliane Brum?

O fato de que gosto de ler surge claramente como um paradoxo quando colocado ao lado do fato da preguiça de continuar lendo a crônica da Eliane no site da Época. Uma crônica muito boa, por sinal, sobre 'o bem', 'a liberdade' e (inevitável) ' o bom ou mau jornalismo'. Não vou adentrar nos meandros da crônica até que filosófica de Eliane, mas o fato é que o texto estava (no popularesco) "bom para cacete" e eu me vi naquela situação do devaneio... da viagem... da desatenção...

Porquê será?

Umberto Eco (chegamos nele!), escritor e semiólogo italiano, deu entrevista recente à Revista Época (olha ela de novo), na qual, dentre outros tópicos, falou sobre a internet. Quando eu li essa entrevista, eu percebi que aquela não era a primeira vez que eu lia sobre alguém que afirmava que o excesso de informações, que são praticamente arremessadas na cara de todo mundo que tenha acesso à web, provoca uma espécie de 'lentidão', 'demência' ou até mesmo, 'amnésia'.

Li sobre isso em um texto que foi colocado em minha prova de espanhol do cursinho que eu, jurando por tudo que é mais sagrado (e sabendo que é pecado. Ui.), prometo que irei postar por aqui assim que achá-lo. A matéria - que eu me lembre se assemelhava muito a um conteúdo jornalístico - era muito interessante e afirmava, basicamente, a frase do notório Umberto, que acabou 'ecoando' (trocadilho i-ne-vi-tá-vel) nos quatro cantos cibernéticos.

Segue um trechinho para quem não teve a oportunidade de ler essa entrevista e, mais abaixo, vou colocar o link dela na íntegra:

"ÉPOCA - Apesar dessas melhorias, o senhor ainda vê a internet como um perigo para o saber?

Eco - A internet não seleciona a informação. Há de tudo por lá. A Wikipédia presta um desserviço ao internauta. Outro dia publicaram fofocas a meu respeito, e tive de intervir e corrigir os erros e absurdos. A internet ainda é um mundo selvagem e perigoso. Tudo surge lá sem hierarquia. A imensa quantidade de coisas que circula é pior que a falta de informação. O excesso de informação provoca a amnésia. Informação demais faz mal. Quando não lembramos o que aprendemos, ficamos parecidos com animais. Conhecer é cortar, é selecionar. Vamos tomar como exemplo o ditador e líder romano Júlio César e como os historiadores antigos trataram dele. Todos dizem que foi importante porque alterou a história. Os cronistas romanos só citam sua mulher, Calpúrnia, porque esteve ao lado de César. Nada se sabe sobre a viuvez de Calpúrnia. Se costurou, dedicou-se à educação ou seja lá o que for. Hoje, na internet, Júlio César e Calpúrnia têm a mesma importância. Ora, isso não é conhecimento. "

Sério, já tendo visto algo parecido antes ou não, esse tipo de frase não é daquelas que deixa a gente mais ou menos assim: "Cacete, será que é mesmo?!".

Eu considerei uma afirmação muito séria e que, inclusive, pode mudar o jeito de encarar a web, informação e comunicação de muita gente.

Não que eu queira adentrar no mundo melindroso e bizarramente complexo da comunicação (porque posso até não ter aprendido muita coisa sobre isso na universidade, mas se tem algo que eu absorvi demais até foi: é complexo pra caramba e não deve ser subestimado nunca!). Mas mesmo assim é uma coisa a se pensar, não?

A internet surgiu com uma proposta fantástica que abarcar todo e qualquer tipo de informação ao mesmo tempo, subdividir, categorizar e jogar na rede onde milhões de pessoas, como peixes famintos por grãozinhos de pão, hiper se arremessam e se aglomeram, batendo e debatendo barbatanas.

Só que: será que ao 'entrarmos' na rede não estamos todos nos 'sufocando' com o excesso de informações e sendo 'fisgados' por um sistema que só pensa em vender, vender, vender?

E o nosso conhecimento... fica aonde?

Será que eu sou mais uma vítima do bombardeio de conteúdo diário a ponto de que hoje eu já não tenho paciência para ler um texto que me agrada, mesmo sabendo lê-lo?

E antes que partam para o fato de que monitor é monitor e livro é livro, eu já esclareço: para mim, leitura interessante é leitura interessante. Não interessa a plataforma.

E aí? Como fica agora? A gente volta no tempo e conserta tudo? Ou se desespera e adota o Pagodinho's way of life: deixa a vida me levar (e a internet também)?

Fiquei um pouco desesperada com a quantidade de matérias, posts e opiniões que nasceram recentemente com este mesmo assunto a partir do brado retumbante do Eco, até porque o assunto É muito polêmico e incômodo. De certa forma, é como se dissesse, resumida e sutilmente, que essa geração tem tudo e mais um pouco para ser considerada 'menos conhecedora' dos assuntos do mundo, apesar de todo acesso às informações. Porquê? Porque não sabe filtrar e, consequentemente, absorver o útil dentro da enxurrada que vem bem diante dos nosso olhos.

Concorda comigo ou não?

Quero dizer, se é que alguém ainda está lendo depois de tanto falatório...Link

Link da entrevista com Umberto Eco: http://revistaepoca.globo.com/ideias/noticia/2011/12/umberto-eco-o-excesso-de-informacao-provoca-amnesia.html

9 comentários:

  1. Concordo em absoluto, mas não tenho nada a acrescentar, visto que seu texto pontua o importante. Por sinal, texto irrepreensível.
    Vamos botar esse blog pra andar, hein?

    Arraese.

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  2. Por incrível que pareça eu li tudo, mentira eu sempre leio esses posts haha, pq adoro!

    Engraçado que hoje de manhã, tava zarpeando por ai e vi um texto muito interessante e falava justamente sobre a alienação da internet, o título dele é: Estamos nos tornando máquinas sem memórias.

    Acredito que o texto tenha o embasamento perfeito do que você quer dizer, ele fala que estamos (mal) acostumados demais com as facilidades com a internet.

    Link do texto que li hoje de manhã: http://livroseafins.com/estamos-nos-transformando-em-maquinas-sem-memoria/

    Enfim, muito bom o texto Maluh!

    Beijos

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  3. Este comentário foi removido pelo autor.

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  4. Obviamente o fato de ter sido Umberto Eco - o Coliseu do intelecto italiano no último século (junto a Norberto Bobbio, sem dúvida) - a ter dito essas palavras foi o que as fez tão soantes. Preciso concordar com Eco quando este diz que "a internet é perigosa para o ignorante, porque não filtra nada para ele". Ora, é esse o ponto. Não há filtros, não há parâmetros! Qualquer bucéfalo pode fazer uma conta na Wikipedia e escrever artigos sobre a constante cosmológica livremente; e um ignóbil que por acaso louco tente inteirar-se da relatividade geral proposta por Einstein pode acabar lendo três dúzias de sandices sobre esse elemento da teoria e, pior, admiti-las como heurísticas!
    Quanto à questão sobre se as gerações atuais são menos conhecedoras do mundo, a despeito da quantidade de informação que têm; ora, parece-me diáfano que sim! Nunca se soube tão pouco sobre tanta coisa; a tendência a especialização do conhecimento parece revertida nas mentes que estão fora das paredes da Academia - essa pobre vítima do desgoverno da internet, um meio repletos de muitos que sequer dão-se ao trabalho de surrupiar e deturpar o conhecimento alheio a sorrelfa e socapa, mas o fazem de modo ostensivo e deliberado e imbuindo-se de empáfia por isso.
    No fim, resta a noção que a chave de tudo é a razoabilidade e a responsabilidade. A internet veio para ficar e isso é ótimo - se não fosse ela, como eu poderia vir aqui deixar essas mal versadas linhas? Fico com a observação de Eco: filtrem, filtrem, filtrem.

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    1. Bom demais, hein? Não há dúvida que é uma honra inenarrável ter seus comentários de palavras tão rebuscadas no humilde blog de uma aprendiz de crônicas. Hahaha...
      Arrasou, amigo. Também concordo com você.
      Filtrar é o negócio. O problema é: como?
      Hoje, tudo "tem" rede social. Sites, portais e etc. possuem diversas formas de jogar na nossa cara o que queremos e o que não queremos ver. As redes sociais - no sentido de web social - são tão abertas e os mecanismos de filtragens são tão poucos ou desconhecidos que, muitas vezes, a gente lê, assiste e ouve coisas que, por nós mesmos, nem gostaríamos de ter lido, assistido ou escutado.
      Infelizmente, a web 2.0 ainda precisa trabalhar nisso aí, né?

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  5. Quanta gentileza para com meus vocábulos. O comentário - penso eu - deve estar à altura do post e, assim, fiz o que pude com esse seu.
    Quanto à filtragem, de fato é um problema. Penso que enquanto nada de mais concreto é criado cabe a nós, navegantes da odisseia WWW encarregarmo-nos de selecionar o que lemos. Tarefa difícil para o iletrado - penosa para os que algum conhecimento detém e necessária a todos.
    Deixe de falsa modéstia quanto à crônica, a subversão a cânones literários draconianos é o que renova a literatura e a qualidade reside no conteúdo e na erudição 9ou na falta dela, às vezes cabível) , embora, claro, a forma seja fundamental.

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  6. Hahahaha.... Vc realmente sabe como me por para cima, viu? Adoro!
    Pois é, né? Infelizmente para mim, a forma é fundamental mesmo... Quem sabe um dia eu não aprendo?
    beijos, meu divo

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  7. Muito bom o texto! ARRASOU!Inclusive eu tava pensando aqui que se você precisar de uma empresária eu tô aqui,tá?!E eu sou boa nisso :)
    Sim,você não é gorda,e sim o que engorda é realmente A COMIDA.(ponto)
    Beeijo Maluhzinha. =**

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  8. A Wikipédia diz que:

    Informação é o resultado do processamento, manipulação e organização de dados, de tal forma que represente uma modificação (quantitativa ou qualitativa) no conhecimento do sistema (pessoa, animal ou máquina) que a recebe.[1]

    Informação enquanto conceito carrega uma diversidade de significados, do uso quotidiano ao técnico. Genericamente, o conceito de informação está intimamente ligado às noções de restrição, comunicação, controle, dados, forma, instrução, conhecimento, significado, estímulo, padrão, percepção e representação de conhecimento.

    É comum nos dias de hoje ouvir-se falar sobre a Era da Informação, o advento da "Era do Conhecimento" ou sociedade do conhecimento. Como a sociedade da informação, a tecnologia da informação, a ciência da informação e a ciência da computação em informática são assuntos e ciências recorrentes na atualidade, a palavra "informação" é freqüentemente utilizada sem muita consideração pelos vários significados que adquiriu ao longo do tempo.


    O que temos que fazer é somente uma coisa:

    Ater-nos a conteúdos seletos as nossas necessidades.

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